Lá na Serra
LÁ NA SERRA
agosto de 2010
Lá, na serra,
Passárgada domesticada,
meu pensamento erra em minha casa
esquecido da pressa.
Bem em frente dela há um morro.
Uma pedra enorme com uma cruz branca no topo.
Um bando de pequenos papagaios habita o vale.
No meu telhado, andorinhas têm ninho.
Há passarinhos por todo lado.
Há insetos, dos mais diversos.
Louva-a-Deus, escaravelhos (mas pode chamar de besouro),
esperanças, percevejos e tantos outros
cujo nome não conheço.
Há cobras. Há de se tomar cuidado!
Jararacas, em sua maioria.
Conquanto nunca vi ninguém picado,
já as encontrei de bote teso,
no meu terreno mesmo, um dia.
Há uma infiltração na parede da varanda,
resultado de uma calha mal feita.
Mas não ligo, a casa, não a quis perfeita.
O perfeito lá desanda.
Lá também são os amigos, passarinhos.
Não os visito: os encontro pelas ruas.
São brinquedos de amizade – calma, desapegada-
que encontramos no caminho,
como a passarada.
Alguns fazem arte, outros são parte
da cidadezinha.
Alguns vivem no mato mesmo;
largaram seus empregos
por essa vidinha.
Lá há música, músicos, alegria.
Platão lá se revoltaria.
Pois lá não é A República,
apolínea, eficaz.
Lá não é lugar de luta.
Lá o menos faz mais.
(final alternativo: “Lá é lugar de paz.”)
No fundo, tudo é crença.
Ivan de Almeida
abril de 2009
Há diferentes níveis de crença.
Existe uma crença chamada de “mágica”. Esta crença está geralmente ligada às religiões, é uma espécie de correlação entre efeito e causa sem sentido prático. “Orei para conseguir tal e qual”, por exemplo. Ou “simpatias” para se conseguir alguma coisa, ou coisas semelhantes.
Há uma outra crença, menos evidente como tal, que está baseada em um acordo social, acordo este que dá significado a ela. Dois mais dois igual a 4, por exemplo. Ou “Os corpos caem”. São afirmativas que são aceitas como verdadeiras, sendo, contudo, meramente úteis em contextos delimitados (sociais). Porque, dois mais dois oceanos são… Sei lá, podem ser qualquer coisa, é água prá cacete, mas quatro não são, pois extrapolam a idéia de quatro. Ou seja, há um acordo prévio sobre a somabilidade das coisas e sobre que tipo de coisas são somáveis, e há um acordp prévio sobre a igualdade das coisas para permitir a soma. Duas bananas maduras somadas a duas bananas pisadas e podres são quatro bananas? É uma boa questão. Para a finalidade prática não. E duas bananas nanicas somadas a duas bananas-figo? Então, há, subjacente na proposição de soma, outras proposições antes acolhidas que exprimem um acordo social sobre o espectro do que é somável, do que é igual, do que não é.
No caso das bananas, se a utilidade for comê-las dividindo-se as bananas entre quatro pessoas, duas bananas-nanicas não poderão ser somadas a duas bananas-figo. O que se vê é a racionalidade da soma depender da utilidade que será dada ao resultado.
O conceito de igualdade mesmo, ele é um conceito sem equivalência no mundo da experiência. No mundo das coisas não há duas perfeitamente iguais. O conceito de igualdade é um decantado de milhões de experiências humanas e sociais de equivalência, mas equivalência é um conceito palpável, enquanto igualdade não. Igualdade é somente um ser de razão, só existe na razão.
No entanto, o conceito de igualdade está no alicerce de milhões de verificações.
Assim, em cada coisa que julgamos verificada, se formos examinar há um tecido-suporte de conceitos, alguns materializáveis, outros não, e nós acordamos que eles são suficientemente “densos”, para neles apoioarmos nossas verificações. Isso não apresenta nenhum problema, é um comportamento coerente com a utilidade, mas pode tornar-se coisa problemática se começarmos a acreditar que as verificações são de fato verificações em sentido amplo e não meros acordos de significado.
Há ainda uma terceira espécie de crença que é baseada na experiência pessoal não muito bem protocolizada nos signos sociamente compartilháveis. Certas adversões, gostos, certas maneiras de sentir. Ou experiências contemplativas, ou de raiva, ou de paixão, de amor, etc. Essas experiências produzem um estado o organismo e esse estado cria uma memória-valor. Quando vale amar? É um valor não obtenível de comparações sociais. E cria uma memória desse valor mesmo quando o sentimento não está produzindo o estado alterado na pessoa. Isso quer dizer, que o vivente pode sentir amor por alguém, mas pode também, enquanto está distraído pensando em outra coisa, saber que sente amor. Porque não necessariamente sabe que sente amor sentindo amor no momento mesmo em que este saber se torna positivo para a consciência.
O homem deseja intensamente dispor de solo firme para suas convicções, mas não há tal solo. Não há em parte alguma, ele sempre vive e viverá em uma nuvem na qual certas partes lhe parecerão muito definidas em certa época, mas quase fantasmagóricas em outras. Coisas sólidas, muito sólidas como as Leis da Física Newtoniana se mostrarão depois meramente boas fontes de prognósticos no mundo sublunar.
O que importa, ao fim e ao cabo, é o quanto as idéias, ou saberes, podem ser boas fontes de prognósticos, o quanto eles permitem agir tendo noção das conseqüências. Esta é a única verdade dos saberes, e sempre será uma verdade limitada, pois a melhor regra sempre será apenas uma regra contingenciada. E, consideradas psicologicamente, importa o quanto as convicções são importantes na produção da felicidade.
O resto é dar à linguagem um fundo metafísico. Achar que se pode saber algo ou achar que nada se pode saber, ou achar que há um método para saber que é em si melhor, tudo isso é discussão dentro da linguagem, limitada pela linguagem, que só parece fazer sentido pela lógica da linguagem.
Talvez nossa maior crença, aquela que fundamenta todas as outras, seja na linguagem.
Saiu p’ra comprar cigarros – um conto
Saí p’ra Comprar Cigarros
Ivan de Almeida
escrito aproximadamente em 2000
(com a redação da época, sem revisão)

De repente, como quem desperta de uma distração profunda, reconheceu a rua em que estava caminhando, e estranhou. Como fora parar ali? Era a Rua Santa Clara, a cinco quadras da sua casa, mas saíra apenas para comprar cigarros, por que estava ali agora? Será que se distraíra tanto que caminhara sem perceber, a esmo? O engraçado é que não se lembrava absolutamente do que pensara ao caminhar. Distraíra-se com o quê? Respirando fundo, como quem afasta o sono, virou-se para pegar o caminho de volta e olhou o relógio para ver quanto tempo perdera. Foi ai que o mundo estremeceu para ele. Aquele relógio não era o dele. Viu um relógio barato, com o vidro já arranhado e com a pulseira gasta, e o seu era outro, um Mido. Mas seu espanto não acabou aí, pois, num centésimo de segundo, percebeu que também o braço em que o relógio estava não era o seu.
Um tremor sentido em cada uma das células do corpo o dominou. Sentiu medo como nunca sentira, e fechou energicamente os olhos, num esforço para despertar daquele sonho estranho. Quando os abriu, entretanto, o braço continuava alheio, o relógio errado, e ainda errados eram os sapatos, a alça, a camisa e o resto de si. Não era ele, e, no entanto, era ele. Aquele não era o seu corpo, nem aquela era a sua roupa. Encostou-se na parede de um prédio, por instantes, em um momento em que quase se deixou desfalecer. Tonto, procurou em uma vitrine o seu reflexo, mas viu apenas a confirmação do pesadelo.
Sentiu desespero, medo, terror. Creu que ficara maluco e que estava vivendo alucinações, ou melhor – tal era o horror que experimentava -, teve esperança de que apenas tivesse enlouquecido. Lembrou-se da sua família, de sua mulher e de seus filhos, que ficaram esperando em casa quando saíra após o jantar, e por eles temeu mais, por intuir, subitamente, que nunca voltaria. Uma dor profunda e penetrante transpassou-lhe a alma. Olhou novamente o relógio. A hora ali marcada era coerente com o horário em que saíra de casa, apenas meia hora parecia haver passado, mas a data! A data estava errada, com certeza, porque saíra na quarta-feira 25, e o relógio informava ser o dia 26.
Enquanto caminhava em direção à sua casa – pois formulara logo um plano: iria até um local em que fosse conhecido, e pediria que o socorressem e o levassem para atendimento psiquiátrico – passou por um jornaleiro, e o jornal pendurado não era aquele que lera de manhã. Era o jornal do dia seguinte, o maldito dia 26 de junho de 1969 que o estúpido relógio dizia ser. Então passara uma noite fora! Onde? O que fizera durante essa noite? Onde estivera? O que estava pensando a sua mulher? Que fugira? Que morrera?
Enquanto caminhava, atordoado, passou alguém e o cumprimentou: “-Oi Nico!”. Mas ele não conhecia aquela pessoa. Continuou seu caminhar angustiado, olhando a todos os que por ele passavam na Nossa. Senhora de Copacabana, perscrutando no rosto de cada um a resposta para o transe que vivia. Finalmente chegou no bar da esquina da sua rua. Era freguês. O Antônio do Bar era seu conhecido antigo, pois, como ele, desde a adolescência morava nas proximidades, e entre eles havia aquela amizade típica das vizinhanças de Copacabana, que transcende as classes sociais. Entrou no bar e sorriu, disfarçando o desespero, mas não viu no olhar que recebeu qualquer reconhecimento. Gelou. Pediu uma cerveja, mas tomou apenas um copo antes que se lembrasse de ver se tinha algum dinheiro na calça desconhecida. Enfiou as mãos nos bolsos, e encontrou uma nota de cinco, o que lhe acalmou quanto ao pagamento da cerveja. Enquanto bebericava, olhava de soslaio para o dono do bar, esperando dele uma palavra, um simples gesto de reconhecimento que o devolvesse a si mesmo, mas isso não acontecia. Ao contrário, percebendo seus olhares, viu no outro surgir a desconfiança.
Bebendo pouco, quase nada, esperou surgir algum dos seus conhecidos que freqüentavam o mesmo bar. O primeiro a chegar foi o Fábio, que passou por ele como se não o visse e encostou-se no balcão. Comentou com o Antônio:
- Fui ao enterro do Haroldo, porra! Como é que o cara vai morrer assim! O táxi nem teve culpa, ele é que atravessou de repente. A Lúcia tava chorando às pampas.
- Porra; o Haroldo deixou a Lúcia com três filhos. Vai ser foda p’ra ela.- O Antônio dizia, demonstrando realmente certo pesar no rosto.
- É, mas na grana acho que fica tudo bem. Ele era do Banco do Brasil e ela vai ter pensão…
E assim foram falando por mais uns quinze minutos, antes que o assunto mudasse para a mulher do número 28, que passava por ali sempre e que o Ferraz dizia estar comendo.
Ouvindo, aterrado, soube das circunstâncias de sua morte. De como atravessara a rua, desatento, e de como fora colhido pelo Aero Willys. Soube que sua morte fora instantânea. Que a Lúcia fora chamada em casa, tendo corrido desesperada até o acidente – pois foi na esquina da rua onde morava -, e ali fora consolada pelas vizinhas, enquanto alguém providenciava as velas para cercar o corpo – soube isso quando comentaram ser engraçado que sempre aparecessem tais velas cercando os mortos das ruas.
Não agüentando mais o bar, com a cabeça girando, mas não pela bebida, caminhou até à orla e sentou-se em um banco vazio, na brisa suave do mar. O “que” ele era agora? Quem era esse, no qual estava? Este corpo era mais velho, com certeza! Não tinha os mesmos trinta anos, mas algo em torno dos quarenta e cinco. Vestia-se simplesmente. A calça era velha e a camisa azul tinha alguns cerzidos. Mexeu nos bolsos. Uma Carteira de Trabalho, um pente, alguns cruzeiros que sobraram da cerveja, um chaveiro com uma chave, talvez do lugar em que morava. Na carteira era Nicolau dos Santos, faxineiro, estando nela anotado que fora despedido no dia anterior do Edifício Dom Ramiro.
*****
Vagou e dormiu pelas ruas. Após dois dias disso, aumentaram os momentos em que o estupor desaparecia, e cada vez sentia mais saudades dos seus. Procurava, então, passar pela sua rua para, quem sabe, vê-los, e chegara, de fato, a cruzar com eles algumas vezes. Vira o Jorginho passar na mão da sua sogra, e viu-o triste, mas, criança pequena que ele era, viu-o também gargalhar, e isso o alegrou. Viu os outros dois, mais velhos, nos quais a tristeza era mais firme. Viu Lúcia, o rosto controlado, mas parecendo prestes a explodir em lágrimas.
Foi também ao Edifício Dom Ramiro sendo recebido com reprimendas pelo porteiro-chefe, chamado pelos demais de Seu Manoel, que lhe disse não entender de jeito nenhum suas atitudes no dia em que fora mandado embora – o dia perdido. Que respondera aos moradores como se não fosse empregado do prédio, que passara o dia saindo e voltando, e que virara as costas quando o síndico estava lhe repreendendo. Disse que fosse imediatamente ao quartinho no qual dormia, na cobertura do prédio, e recolhesse suas roupas e suas coisas, pois o Dr. Marcelo não queria vê-lo mais por ali. Deu-lhe um envelope com algumas notas e mandou-lhe assinar um recibo. Durante alguns momentos não sabia o que assinaria, se Haroldo ou Nicolau, mas, mesmo quando optou pelo último não empunhou a caneta, pois não sabia de que jeito o Nicolau assinava. Disse que estava nervoso e por isso deixaria sua impressão digital no recibo, sujando o seu dedo com a própria tinta da caneta e calcando-o, depois, no papel. Viu que o Manoel não gostou, mas percebeu que ele preferia não contrariá-lo.
O porteiro chamou um rapaz com macacão de zelador, e disse que acompanhasse o Nicolau até o quartinho, e assistisse enquanto ele pegava suas coisas, para que nada mais fosse levado. Subiram até o telhado, o rapaz dizendo que era novo na vaga. Em uma mala marrom de papelão, que lhe foi indicada como sua, recolheu algumas roupas que estavam por perto, tendo o rapaz lhe apontado mais alguns objetos; um sapato bem usado e uma flâmula do Flamengo, dizendo que deviam ser dele, pois já estavam no quarto antes que ele tivesse trazido sua bagagem.
Ao sair do Edifício Dom Ramiro, porém, só quis voltar para os seus, só quis cuidar dos seus, só quis vê-los! Com a mala na mão, caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana, ia, sem querer, mais uma vez na direção da casa em que morara.
*****
Jorge desligou o carro, e sua mãe abriu a porta para sair. Já eram 11:30h. Tinha marcado a vistoria do carro para aquela manhã, mas teria que remarcá-la. Sua mãe insistira – Ah, Dona Lúcia! -, e ele cedeu de bom grado à sua insistência para levá-la ao Caju, no enterro do Velho Nico. Seus irmãos, um deles morando em São Paulo e o outro nos Estados Unidos, tinha certeza de que teriam querido ir também. Durante quase trinta anos o Nicolau fora porteiro do seu prédio, tendo continuado na portaria mesmo quando já podia estar aposentado, até que morreu, subitamente, do coração. Morte providencial para o síndico, que estava em uma situação desconfortável, querendo despedi-lo, pois o Nico já não tinha mais idade para a função. Mas ele, Jorge, gostava do velho. Quando era garoto, no verão, ele tirava a hora do almoço para levá-lo com os irmãos à praia para jogarem bola, e jogava com eles, e durante o ano os acompanhava até a porta da escola, algumas vezes indo buscá-los. Sua mãe lhe dava algum dinheiro para fazer isso, e também para fazer alguns trabalhos pesados de faxina, assim como pequenos consertos na casa. Desde que fora trabalhar no prédio, o velho parecia ter se encantado com eles, “os meninos”, e vivia dizendo que se pareciam muito com os irmãos que deixara no Ceará. Era muito ligado à família deles.
O Mito da Liberdade – 1
Ivan de Almeida
11 de dezembro de 2005
Se lhe disser que liberdade depende de disciplina, o que você me diria? Mais ainda, que depende de uma dose brutal de disciplina? Bem, então lhe digo isso mesmo, pois me parece verdade.
A questão, no caso, é não poder existir liberdade sem potência. Não há liberdade impotente, a impotência é em si um limite. Por outro lado, a capacidade de fazer algo, a potência, não provém do acaso ou do impulso indisciplinado. Para certo tipo de coisa é preciso capacidade, capacidade de persistência, capacidades econômicas, capacidade de conhecimento e prática, etc, e essas capacidades são adquiridas e mantidas por disciplina.
Isso parece bastante paradoxal. Para ser livre, isto é, no sentido prático, para ter capacidade escolher, é preciso em alto grau sacrificar liberdades anteriores para adquirir capacidade de escolher de fato (a potência), e depois da escolha novamente é necessário sacrificar liberdades indiferenciadas para manter essa escolha.
Provavelmente uma parte significativa da angústia do indivíduo nas sociedades atuais provém de ser permanentemente convidado a exercer uma liberdade que já foi já consumida por opções anteriores, ou sequer criada anteriormente sob a forma de potência, mas que é insinuada como a ele pertencente. A palavra liberdade, no âmbito da propaganda, é revestida de um grau de potência ilimitado, como se isso fosse possível, omitida sua natureza de escolha, de renúncia necessária das outras possibilidades. Então o indivíduo permanece tonto e prisioneiro das opções contraditórias, isso gerando uma espécie de sofrimento individual de natureza social, um sofrimento induzido e capaz de mantê-lo como um insaciável consumidor de opções e incapaz, no mais das vezes, de desenvolver uma só, aprofundar uma só, ou seja, de escolher realmente como quer viver. Naturalmente, tais opções são produtos, a liberdade é oferecida sob a forma de produtos e como um consumo ainda quando esse consumo é de amor, de sexo, etc, pois nesses casos necessariamente mediado pelo consumo de produtos ou de um conjunto de produtos ou serviços favorecedores.
A compreensão da natureza paradoxal da liberdade provavelmente é a única forma de tê-la de fato, isso significando assumir não ter uma potência de ação ilimitada, mas sim ter clareza das escolhas feitas, escolhas iniciais e escolhas de manutenção (pois se manter em uma determinada situação é também uma escolha). É preciso, pois, uma disciplina de liberdade, ou se cai prisioneiro de um canto de sereia, cheio de promessas mas cuja resultante é manter o indivíduo imobilizado, escravo dos desejos a ele impartidos que o transformam em títere, não em homem livre.
Sobre a autonomia do indivíduo e o homem social
Este artigo tem forma de resposta, porque nasceu como resposta a um poema feito por um conhecido. A forma de resposta foi mantida e isso não atrapalha a leitura nem torna insuficiente a argumentação.
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Prezado;
Um dia, com calma, vou expor a você minha idéia sobre a ontologia dos Chakras. É uma idéia maluca que nunca li em lugar nenhum, apenas a percebi durante algumas seções de relaxamento, pensando sobre eles a partir da idéia dos Centros do G e de minhas percepções de momento.
Mas, em resumo, essa idéia é de que as coisas nascem umas das outras, elas não nascem do nada, assim um Chakra se origina de uma especificação do anterior.
Porém, vamos deixar os Chakras de lado, não são importantes para esse assunto. Vamos ao que interessa.
A mente humana é algo que não existe e existe, isto é, ela é uma ilusão funcional, um tipo de tendência de repetição de processos neurológicos derivados dos hábitos de interação do organismo com o ambiente. Essa repetição é causada pela constituição física do conjunto neural, mas não só por sua constituição inata e sim, nos aspectos mais propriamente classificados como mentais, pelas modificações e especificações do sistema neurológico derivadas de seu funcionamento. Esse processo é descrito neurocientificamente como a formação de axônios e dendritos, os quais conformam redes preferenciais para as trocas elétricas iônicas das sinapses. Esclarecendo melhor: Os padrões de ativação e inibição neurológicos tendem a repetir padrões anteriores de ativação e inibição anteriores, pois as sinapses acontecerão em redes de ligações neuronais que se construíram e se reconstroem permanentemente pelo próprio uso, mas que têm uma inércia, isto é, elas podem se enfraquecer, mas duram e durando são reusadas, e reusadas se fortalecem tornando-se mais duráveis. Isso é o rebatimento do hábito na neurologia.
Desarte, um ser humano é uma biologia que se especifica pelo meio, e por um meio especialíssimo que é a sociedade. Nesse sentido você está certíssimo: não há homem sem sociedade. É da sociedade que o homem adquire sua humanidade, é da sociedade que ele obtém suas mente, e essa mente em grande parte é apenas a sociedade rebatida em seu sistema nervoso, a sociedade como uma espécie de hábito compulsório (pois os costumes e os protocolos de interação social também têm uma inércia, uma durabilidade à qual cada indivíduo precisa conformar-se para operar no mundo coletivo).
Mas, uma vez formada essa rede de idéias e hábitos ela passa a ter uma dinâmica própria, dinâmica que não é somente reatividade ao meio. Ela ganhando complexidade começa a gerar dentro de si mesma processos de ideação separados dos estímulos externos presentes. Assim, após “feito” pela sociedade, o homem também ganha dela certa autonomia. Essa autonomia, se quisermos ser completamente redutores ao descrevê-la, deriva de certa autonomia dos processos de intelecção da situação presente onde se encontra o organismo, deriva de estados internos do organismo. E aí ele também ganha a possibilidade de ter uma esfera de ser para além da social.
Veja: ontologicamente esse homem não-social nasce do homem social. É claro que sim, mas NÃO SE REDUZ A ELE. No dizer do Morin, esse homem não social é uma Emergência, e conforme ele mesmo explica o que é uma emergência:
“Podemos chamar emergências às qualidades ou propriedades dum sistema que apresentam um caráter de novidade em relação às qualidades ou propriedades dos componentes considerados isoladamente ou dispostos de maneira diferente em outro sistema.” (Morin, 1997,104 – O Método; A natureza da Natureza)”
Esse caráter de novidade em relação aos componentes (mente do homem social) é certa autonomia do indivíduo. Ele é possuído pela sociedade que nele gera uma mente social, mas essa mente social, por sua vez, não é perfeitamente coerente e sintética -se fosse nos tornaríamos formigas ou abelhas- mas suficientemente complexa e contraditória para ocorrerem processos internos independentes da situação (melhor dizendo, com procedências independentes da situação), e esses processos internos são o germe da individualidade.
Não há nenhuma contradição entre o homem social e o indivíduo, pois o indivíduo é uma derivação do homem social, ele é construído com o material do homem social, mas, isso é o importante, NÃO SE REDUZ AO HOMEM SOCIAL, do mesmo modo como uma casa com suas características não se resume aos tijolos e telhas que foram usados na sua construção.
Ivan de Almeida, 8 de abril de 2006.
Direito à Utopia
Ivan de Almeida – 04 de dezembro de 2005
Uma grande catástrofe caiu sobre o mundo, sobre os homens, sobre os paises, sobre a época. De repente, não sabemos bem como aconteceu, não sabemos quando foi o instante crítico em que isso se tornou cabal, não mais acreditamos que o mundo possa ser diferente do que é. Assim, não acreditando, somente nossa vida imediata nos interessa, somente metas que se referem a melhorar o ontem, a tornar o amanhã um ontem melhorado são tidas como realistas.
Aceitamos -ou nos convencemos,melhor dizendo-, que tudo em nós é natureza (e isso éverdade também, de alguma forma), é expressão dela simplesmente, sem que a vontade possa conter esse fluxo, desviá-lo. A vontade é uma categoria estranha para os dias atuais. A vontade não tem lugar no mundo. Tudo é um acontecer e nós, antes protagonistas, agora vemos nosso protagonismo como um delírio impossível, como uma ilusão passada, como mais uma trapaça da natureza a nos enganar, a nos dar a ilusão de vivermos em um mundo sujeito à nossa intenção e, até certo ponto, transformável. Agora sabemos -ou nos convencemos- ser isso uma ilusão, e só esperamos um outro dia após esse dia onde a natureza segue seu curso.
É muito interessante a obsolescência da vontade como faculdade humana. A vontade hoje é incrível. Não faz sentido, máquinas biológicas que somos -ou nos convencemos sermos- termos vontade. Simplesmente não há como lidar com isso, com essa emergência estranha a partir de algo tido meramente como um sistema bioquímico.
Mas, talvez tenhamos esquecido que a particularidade de ser homem é exatamente o uso desta vontade, mesmo sendo ela ilusão, mesmo sendo ela pulsão do organismo, mesmo não cabendo nos modelos.
Talvez, só talvez, a ilusão seja outra, a de podermos dizer de nós: “somos máquinas bioquímicas”, ilusão aliás bem ingênua, pois quem declara sê-lo é a própria máquina, e assim ela prefere dar fé a uma declaração feita –a da sua natureza maquinal- e resolve não dar fé a uma outra declaração -de ter vontade. Esse é um labirinto sem saída, pois mesmo a suposição da máquina é máquina, e mesmo a suposição da máquina é vontade –vá lá, uma forma menos vigorosa dela.
Há nisso algo grave, mais grave ainda por não ser o mundo hoje um lugar da satisfação possível dos seres humanos. Entregar-nos à natureza é romper aquele profundo pacto entre todos que se insinuou, talvez nunca tenha existido, mas se insinuou na mente dos sonhadores é um belo pacto: ser possível um mundo para todos e tentar fazê-lo. Temos direito à utopia. Temos direito à vontade. Temos direito a assumir as rédeas de nossa existência e de planejarmos um outro mundo com outras regras, mesmo para fracassarmos, pois a aventura de tentar, mesmo fracassando, é melhor que a vida coletiva impotente, ela mesma um fracasso constante.
O Vão Pensamento sobre o Impensável
Escrevi este texto em resposta a algumas indagações de um amigo em uma lista de discussão ainda no ano de 2005. Transcrevi aqui por dar conta da forma como encaro a coisa, principalmente da forma como a tendo encarado já há muito tempo, agora se tornou muito claramente assumida.
Caríssimo:
Demorei 52 anos para chegar à interpretação que hoje lhe apresentarei sobre o Pecado Original, aquele do Adão. Passei por várias interpretações, uma delas ser esse pecado a Razão, o cálculo nele implícito, mas, recentemente, e até devido a uma conversa com você aqui na lista, caiu-me a última ficha:
o pecado fundamental do homem é cogitar sobre aquilo que não pode ser objeto de cogitação, e o fazendo adquirir certezas que são mais desvarios que qualquer outra coisa, e pior ainda, agir tomando por base essas certezas.
Não estou falando do Pecado Original devido a nenhum impulso religioso, mas sim como alguém que ao olhar para as tradições do passado não as reduz a um monte de maluquices de homens ignorantes e sim procura compreendê-las como repositórios de compreensões do mundo por homens que como nós se espantaram com a existência. Muitos já beberam na fonte dos mitos, o Freud é talvez o que fez isso de forma mais clara.
Mas durante essa nossa conversa, nos dois últimos meses principalmente, percebi claramente eu não cogitar várias das coisas que você cogita e que apresenta a nós como não apenas cogitadas como também servindo de plataforma para outras conclusões. Não tenho nada a cogitar sobre a existência, por exemplo, se existo, se não existo, o que existe, se você existe como eu existo ou não, etc. Não perco meu tempo com isso, pois não é algo que seja possível conhecer. Jamais sairei da minha presença, esse mágico confinamento no ser, presença essa que para todos os efeitos é tudo o que se me aparece como existindo, então nunca poderei responder sobre você, sobre o mundo além da minha presença, nada. Não perco tempo pensando nisso, nem baseio pensamentos outros nisso. Não perco tempo pensando na origem do universo, ou se há um fim para ele em algum sentido, etc. Nada do que eu possa pensar sobre isso instrumentaliza minha ação no mundo.
Apenas aceito. Essa aceitação implica, eu sei, em subentender a sua existência e a existência de um mundo exterior que não é livremente alterável pela minha psique, embora tudo o que eu tenha dele seja uma imagem
psíquica, uma deformação na minha psique produzida pela história de minha interação com esse algo resistente que convencionamos chamar exterior. Meu pensamento é um pensamento prático, não metafísico. As questões metafísicas não têm solução, e não vou me iludir achando que tenho alguma solução para elas. Ajo. Agir é tudo o que posso fazer, e a ciência é somente algo que é parte dessa ação. Sei que o pensamento científico é apenas um jogo, que a matemática é outro, que a linguagem é outro, e são jogos perigosos, pois nos dão a ilusão de podermos com ele fazer perguntas que eles parecem responder dentro das suas regras, e assim nos iludir que sabemos algo sobre o incognoscível.
O mundo, o que é? Não sei. É um mistério insondável mesmo que às vezes pareça ser pouco misterioso e até banal. Vivemos assim mesmo, nesse transe, pois nossa vida é um longo transe, transe que se torna hábito, e por tornar-se deixamos de nos espantar com ele. Um transe que nos empurra para a ação, um transe no qual parece haver sentido para ela, mas esse sentido nunca dado pela razão, mero instrumento, mas por uma valoração das coisas que não é da razão embora seja polida pela razão.
Não sei se existo, mas ajo como se existisse. Não sei se você existe, mas respondo a você como se você existisse. Não cogito isso. Cogitar isso é o Pecado Original. Essas cogitações, baixando bastante a bola, não constroem ciência também. Não se parte do Big-Bang para se chegar a conclusão alguma sobre o que nos cerca. O movimento é o contrário: O Big-Bang é uma ilação feita desdobrando-se algumas regras da física, só isso. Mas é só uma ilação rocambolesca, barroca, uma espécie de afresco pintado no alto de uma cúpula. Mesmo que o afresco represente de Deus e todos os seus anjos, quem sustenta a cúpula é a geometria da montagem dos tijolos, e não o afresco.
Sempre, partimos do que nos cerca, do que nos parece útil à vida, das perguntas que respondidas nos instrumentalizem a ação, e não das grandes perguntas irrespondíveis. Essas, tivermos a mínima ilusão de termos delas resposta somente nos tornamos meio insanos, como muitas vezes são os homnes e as sociedades.
Creio que só me tornei verdadeiramente adulto recentemente, quando ficou claro para mim a impropriedade de perguntar-me sobre o que nunca me será dado saber, nem sequer sendo algo do campo do saber. Mesmo sendo já essa minha tendência e prática há algum tempo, não era tão conscientemente assumida quanto é agora.
Não existe verdade no conhecimento, existe utilidade somente.
Ivan – 09 de setembro de 2005