Pensamento em Ziguezague

Junqueira, Ivan de Almeida – textos e fotos

A Existência – pensamentos do sábado de manhã

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A Existência – pensamentos do sábado de manhã

Ivan de Almeida
outubro 2016

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Sim, existimos, ou pelo menos temos a ilusão da existência, entendendo a ilusão não como o não-existir sendo A Verdade, mas sim ilusão da nossa existência particular.

Creio que mesmo dentro do ateísmo há uma espanto. Podemos tirar tudo, um deus, um destino, qualquer coisa, mas a existência é espantosa, mais espantosa ainda por sermos uma micro existência em um macro universo, tão macro, tão macro que nem formigas somos, nem bactérias dele somos. Somos o quê?

Mas o universo, meio sem fim, é sem fim para todos os lados, em tamanho maior, em micro tamanho. Temos sempre um fim suposto, pensamos “vai daqui até ali”, mas a verdade é que os limites são inalcançáveis dos dois lados. “Ah, mas a matéria acaba nas camadas lá no fundo do átomo”. Mas não é bem assim, ali naquele fundo há uma energia que conforma, e é, aparentemente, infinita a busca.

Neste transe somos uma parcela do todo, um cisco do todo, e nós, ciscos, pensamos sobre o todo. É impossível entendermos, só podemos viver enquanto vivemos, e sequer sabemos sobre a morte ou sobre a preconcepção.

Não existíamos, havia óvulos, havia espermatozoides recém-formados, mas tanto um quanto o outro, óvulo e espermatozoides, são vivos, então a vida nossa não começa em nós, nem no óvulo somado ao espermatozoide. Algo estava vivo, e nós somos um detalhe momentâneo da vida, um desdobramento, um evento a existência maior.

Ah, sábado de manhã… Sossega…

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Written by Ivan de Almeida

outubro 29, 2016 at 2:39 pm

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Não enganou ninguém…

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Não enganou ninguém…

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Ivan de Almeida
outubro de 2016

Mas foi malandro. Uma calça Levis velha, uma camiseta bacana, mas levemente surrada, e um tênis comum, um All Star meio usadinho. E um relógio de plástico Casio, daqueles simples.

Fica engraçado dizer tudo isso, mas olha só, ele se construiu com isso. Parecia um cara legal, de algum bom gosto, mas sim, um duro, sem dinheiro.

Marcou com ela para tomarem um café. Chegando no lugar a encontrou, tomaram, e ele insistiu em pagar. Quem olhava dizia que pagava com sacrifício, com um gentil sacrifício. Pagou, saíram andando e conversando, sentaram na praça São Salvador numa hora ainda vazia. Conversaram à beça. Ele fugia, com arte, de alguns assuntos.

Foi muito legal. Deixou-a em casa depois, ali perto, num daqueles prédios com jardim tosco na frente. Não era rica, mas era bem de vida. E falou com ele, não o ignorou. A convidou para jantar no dia seguinte, ela titubeou, achou que sairia caro para ele… Perguntou aonde jantariam. Ele fugiu da pergunta. “A gente vê”. Mas ela aceitou, disse a ele que rachariam a conta, ele disse “Amanhã conversamos”. Ela entrou na portaria.
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Saiu andando feliz, entrou no BMW novinho, ligou e saiu para Ipanema, onde morava.

Written by Ivan de Almeida

outubro 18, 2016 at 6:28 pm

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Recriação no quarta-feira

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Recriação na quarta-feira

Ivan de Almeida
14 de setembro de 2016

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Ushuaia, Argentina, 2016

 

Ele (leia-se Eeeele) acordou de mau humor.

Caramba, os homens são muito chatos! E o lado Dele que acordou (pois outros lados ficaram acordadíssimos e outros ainda sonham), fez com um peteleco a extinção dos homens. Plim! Pronto, extintos!

Muito chatos. Tem atualmente um mar de ateus enchendo o saco, eram até simpáticos antigamente, esses ateus eram um tempero. Antigamente, claro, Ele falando, pois se referia ao recentíssimo tempo dos agora extintos humanos, porque para Ele mesmo não rolava nem antes nem depois nem agora. Claro, os homens eram parte Dele, então Ele os extinguiu instantaneamente como se fizesse barba. Já estavam extintos!!! Gente chata!

Chamou um arcanjo, que, é claro, também era parte Dele, e lhe disse: “Cara, cuide dos cachorros. Tá cheio de cachorros presos, liberte essa animalidade!” Falou com cara de benfeitor, todo prosa.

O arcanjo saiu reclamando. Haja saco! Deus ainda falou para irem de continente em continente libertando os bichos. Um dia, pelo menos, de serviço, ia ter de levar uns anjos, também partes de Deus mas menos sagazes.

O arcanjo ficou pensando que Deus era omisso, devia ter extinguido tudo, até mesmo toda a galáxia ou a reunião de galáxias. Pensou consigo: Deus preguiçoso, “se fosse eu..”. Cara louco, afinal ele mesmo era parte de Deus, a preguiça era outro departamento da deidade.

Chamou a rapaziada. Ou mentalizou, sei lá. Anjos e anjinhos, e desceram ou melhor apareceram, ou nem isso, mas foram soltando os cachorros. Au! Au! Au!. Caramba, o arcanjo achou que eles iam morrer, porque não teriam mais comida… Danem-se! Pensou. Culpa de Deus que resolveu desse jeito!

E os gatos? Tinham de libertar os gatos, são mais selvagens, talvez alguns vivam… Deu ordem de soltar aos anjos, afinal ele era Ele também. E os anjos idem.

O dia foi correndo, já estava acabando quando O Senhor acordou com preguiça (outra parte do Senhor). Essa parte gostava das confusões humanas, era como ver uma Sagrada Televisão. Essa parte anulou o decreto (Decreto? Não foi decreto, rapaziada, Deus deu só um peteleco) e fez o homem voltar à cena.

Caralho! Gritou o arcanjo! Vai ser difícil achar cada cachorro e trazer de volta, e alguns foram picados por cobras, outros foram comidos por ratos (porque os ratos ficaram sem comida, estavam acostumados à comida diária, e aí atacaram os cachorros mais bobos, menores). Além de outras espécies de homens-dependentes, as pulgas dos colchões, os bilhões de percevejos, etc. Tava tudo misturado, confuso, e o arcanjo já entrando em crise do trabalho.

Foi malandro e fugiu. Mas fugiu e ficou, a parte que fugiu foi para uma ilha deserta, sem nada humano, e caiu n’água do mar, pegou sol. Mas a parte que ficou, estressada, foi de rato em rato, de cachorro em cachorro, de pulga em pulga, de barata em barata (Deus é um desleixado, afinal as sagradas baratas precisam do homem para viverem).

De todo modo, tudo foi voltando ao normal, e os homens nem perceberam a confusão. Tudo isso foi em instantes, em realidades paralelas, a conta foi cobrada na mesa do freguês do lado.

Written by Ivan de Almeida

setembro 14, 2016 at 2:50 pm

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Interpretações Circunstanciais da Percepção

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Interpretações Circunstanciais da Percepção

Ivan de Almeida
agosto de 2016

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As interpretações de nossa percepção são isso,são interpretações que são circunstanciais, pois a mesma cor ou a mesma sombra são tidas como aquela cor ou aquela sombra dependendo do contexto, das luzes do entorno, etc, e a audição é completamente seletiva, nós não escutamos (raramente escutamos) nossos ruídos corpóreos como o batimento do coração, vemos um mundo estável quando também, pelo batimento cardíaco, o olho pulsa. É possível, em circunstâncias especiais, em treinamento especial, ver a pulsação.

Outras civilizações distinguiam as cores diferentemente, isto citado pelo Merleau-Ponty em seu interessantíssimo livro Fenomenologia da Percepção falando dos índios da América. As crianças não distinguem cores, melhor dizendo, distinguem mundo multi-variado como o nosso, mas não sabem distinguir uma cor da outra. Não é chute. Quando minha filha crescia novinha nós perguntávamos “qual cor’ e foi evidente em certas ocasiões que ela não distinguia. Aliás, nela distingui umas três características de formação que não sabia, pois no mundo normal são fenômenos invisíveis. Por exemplo, em uma das ultrassonografias ela apareceu fazendo abdominais incessantes. Estranhei, falei com o médico que nos atendia, ele disse que aquilo é uma etapa das gestações, ou seja, vi coisa que a vida comum não mostra, que o controle muscular começa ainda no útero na cessação das pulsações corpóreas (pulsação é uma característica fundamental celular). Depois, quando nasceu, ainda na maternidade agarrou a mãe, jogou a perna por cima da mãe para “capturá-la”. Hoje compreendo que a vida uterina transmitiu a ela a dedicação da mãe ao primeiro filho, não uma transmissão racional, mas animal, e ela nascendo tratou de se defender “capturando” a mãe.

A questão do cognitivismo não é uma questão errada ou maldita. O mesmo fenômeno pode ser decomposto em suas partes, todas as coisas têm muitos lados, então o jogo dos significados e orientação cognitiva é uma esfera de análise, a biologia específica outra, e assim vai. No cérebro há uma coisa que é difícil de lidar porque ele se modela pelo uso, então as ideias, o pensamento repetido, modela um tanto cada neurônio e suas extensões de ligação..

A questão do entendimento do mundo é em grande grau arbitrária. Nada É, tudo é parte, tudo é situacional. A questão aí não é buscar a verdade, pois seria querer que o oceano caiba numa panela. A questão é buscar o conhecimento útil para a circunstância. O homem não saberá nunca nada do que de fato é, mas sim, saberá coisas que usará para viver.

Written by Ivan de Almeida

agosto 25, 2016 at 1:37 pm

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O homem e o pensamento

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O homem e o Pensamento

Ivan de Almeida
agosto de 2016

 

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a construção de si mesmo

A questão é que se comete um erro quando se lida com o assunto. Toma-se, na maioria das vezes, o raciocínio humano como coisa inata. Mas o inato do homem é apenas sua animalidade. O que realmente há no homem é um treinamento, um treinamento em… ser homem (o que chamamos de ser homem). O bebê quando nasce ainda não é. Mas aprende a ser pois os comportamentos são a ele passados, desde a mais simples convivência com outros homens treinados, educados.

Ao longos dos milênios, a corrente de transmissão se mantém. Muda a cultura, mas o homem é, como o conhecemos, um animal treinado, treinado até no pensamento. Observem que os pensamentos são pensamentos em palavras, e palavras são adquiridas na infância, e palavras variam pelo mundo como a língua varia..Nós não pensamos em “coisas”, mas em geral em palavras, e mesmo as coisas são símbolos.

O homem não passa de um animal treinado, que se especializou em se tornar capaz de receber o treinamento. Esta é a evolução. A evolução do homem foi a capacidade de receber e transmitir o comportamento cultural humano. A cultura, aqui falada, não é o que se chamamos de cultura maior, é a cultura de convivência humana e sua comunicação, aí se sofisticando degrau a degrau até a “mente pensante”.

O homem tem dentro dele um ser social que é uma educação direta ou indireta, desde sua infância. É inseparável do cérebro. Não dá para simplificar, pois cérebro é desenvolvido (ligações) com o uso, e o uso é este, uso cultural.

Porém o homem louva e adora esse troço que é meramente ser social, e não sabe ser outra coisa. Acha que é seu eu, e de certa forma é, embora isso seja um eu social. Porque o homem social começa a ser formado no berço e evolui, então como tudo na vida, seu cérebro vai ganhando uma interface e esta interface, por sua vez, especializa o cérebro, aproveita as especializações possíveis, que é semelhante porque é semelhante o viver social.

O homem, como o conhecemos, é um homem social, ou seja, olha a si e não vê nada diferente do que foi formado socialmente. Evidentemente, em todo ser vivo há uma mistura de adquirido e nativo, mas mesmo o nativo sofre modelagens já na vida fetal particular,que não é igual quando, por exemplo, a pessoa nasce no verão e no inverno, que não é igual quando é filho de uma mãe em paz ou uma mãe nervosa e vítima de violência. Porque desde certo ponto da gestação o ambiente influencia o feto. É impossível separar o homem de sua vida fetal particular. O homem não é uma tábua branca.

Cada um de nós se formou biologicamente e culturalmente (ou vivencialmente), em um conjunto de influências mútuas, Não existe homem genérico.

Há, cada vez mais raros, casos de homens raptados por macacos (África) e quando achados, já crescidos, não aprendem mais a serem homens, são animais de biologia humana. O homem, como conhecemos, é uma mescla de modelagem mútua da biologia e da cultura (ou experiência de vida).

Written by Ivan de Almeida

agosto 25, 2016 at 2:26 am

Nós em nós.

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Nós em nós

Ivan de Almeida
julho de 2016

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O interessante dos seres humanos é desde muito novinhos praticarem as expressões de sua personalidade. Um tanto do meu credo construtivista ficou abalado ao observar isto nos filhos, e penso que mesmo  na gestação (quando dela?) é meio impossível separar o inato e o adquirido, pois cada vez mais creio que há traços de personalidade adquiridos desde a gestão. No nascimento, na clínica já mostram comportamentos que são ligados à personalidade. Nós não percebemos isso no primeiro filho, pois não temos comparação, mas para mim ficou óbvio quando a filhota nasceu.

Posso chamar isto de genético? Ou devo entender que mesmo no útero as experiências emocionais/formativas estão presentes? Sei que com dois filhos assisti a dois nascimentos, vi como o primeiro era para mim aparentemente um caderno sem uma linha sequer desenhada, e a segunda nasceu e na maternidade ainda mostrou uma personalidade. Nasceu de manhãzinha, de tarde, início da tarde, foi levada ao  quarto porque não estava deixando os outros dormirem porque chorava. Chegou no quarto fez aquilo que não imaginamos o bebê saber, deu uma chave de pernas na minha mulher como se quisesse prendê-la e logo dormiu no colo. Queria ser a dona da mãe. Não é pensamento como o entendemos, mas algo que não deixa de ser ligado ao pensamento. Confundimos demais nosso pensamento com a recitação interna de palavras, coisa que só é adquirida por aprendizado.

Creio que é um grande erro da abordagem científica a separação perfeita entre o genético e o adquirido. Hoje penso que não é possível separar animal nenhum em nenhuma das fases do seu ambiente, ainda que esse ambiente seja o útero. Que a química do sangue materno reflete um tanto dos sentimentos da mãe, que há sim algum mundo que chega ao feto pela parede do ventre, pela química sanguínea. Que os sentimentos, o comportamento das mães é o fator ambiental na formação dos filhotes em aspectos que depois serão vistos como psicológicos adquiridos.

O homem tem uma teoria tosca, a Tábula Rasa do ser humano em seu nascimento para uns, a genética determinadora da personalidade para outros. Mas o homem não considera que a formação do organismo provém lá da divisão celular que é sua primeira existência e que pelo menos desde o início da parte neurológica há um viver uterino que faz parte da formação neurológica. Nossa ciência não diz que o mundo exterior faz efeito no feto, que é diferente a mãe na praia chegando luz (pois nossa carne e pele tem uma dose de transparência) ao feto no verão isto diferente da mãe agasalhada no inverno. Nossa neurologia não é independente do ambiente, e uma mãe com medo é diferente quimicamente de uma mãe feliz, uma mãe que transa grávida é diferente de uma mãe que não transa, uma mãe que come muito é diferente de uma com fome. A química do corpo é distinta, e o feto vive um tanto nesta química, nas reações corpóreas e se forma ali.

Nós somos um evento da formação do ser. Nós não somos personalidades independentes. Nós recebemos e entregamos, nós somos um condutor da vida que a nós foi conduzida e que continua nessas formações. A gravidez da mãe é indissociável emocionalmente da sua relação com o pai.

É claro, a aquisição de experiência não acaba no nascimento, muda para outra escala, outro padrão, mas as experiências do feto são fundações dessa construção. É claro, podemos retificar uma ou outra, podemos surfar as tendências ao educarmos ou nos educarmos. Nada começa exatamente num ponto. Somos na humanidade. Somos na vida da humanidade.

Written by Ivan de Almeida

julho 6, 2016 at 9:49 pm

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O Homem da Ciência, o Homem da Filosofia, o Homem da Religião, O Homem do credo.

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O Homem da Ciência, o Homem da Filosofia, o Homem da Religião, O Homem do credo.

Ivan de Almeida, 23 de junho de 2016

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Nossa existência é incompreensível. Nossa existência transcende nossa capacidade de formular, nossa capacidade de entender, nossa capacidade normal de observar.

O homem, desde sempre, desde que se separou da animalidade, esta animalidade consistindo em viver o presente e lutar por comida e sexo, entrou nesta agonia humana, nesta agonia de querer saber o impossível de saber.  Foge. Foge da mera existência não racional, da presença dentro de um mundo biológico do qual faz parte não é o rei. Quer ser o rei, e, “toma a droga da cultura” e se lança na busca de resposta, e exibe a sua resposta preferida, que não passa de uma cortina de teatro que o impede de ver o palco.

Entender que é vivo e ao mesmo tempo é parte da vida, que a vida é um todo, que o micróbio tem tanta importância que ele se dá. Que inexiste vida isolada das demais. Vivo? Vivo é o planeta, o sistema solar, o Universo. “Mas só sabemos da vida da Terra”, isto não importa, a vida existe, e parece uma mera combinação dos elementos, uma combinação que cria a esfera da percepção e depois esta cria a esfera do pensamento.

O ateu que brada o ateísmo não é ateu. É um crente que acha que ali há alguma conclusão a chegar, que ali tem a idéia final, que ele é sábio por saber isto insabível. O religioso idem, acha haver ali algo a dizer, a descrever. Mas não há conclusão a chegar, não há “resumo” (religião), não há nada, apenas cada um de nós enxerga a presença com seus olhos, e o bicho com olhos diferentes vê outra coisa ligeiramente diversa. Somos presença. Os bichos são presença. Os micróbios são presença. O Universo é presença, embora não saibamos sequer sua presença de fato, pois o universo também é incognoscível.

Estar presente. Só isso e tudo isso. Estar presente é tudo para nós. Todas as outras coisas são saberes úteis e saber útil é um saber contextual, serve para aquela situação. Saber útil não é a verdade revelada, como creem os da ciência em sua religião. E nas religiões também não há verdades, as religiões nascem da transmissão a terceiros do que experimentou em transe o fundador dela, ou os a ela ligados que também alcançaram o transe.

O transe é alcançável, mas não é vida social ensinada. O transe é estar presente. O transe é o aqui e agora, é o bicho que somos mergulhados na existência, mergulhado na presença, presença esta que em certo grau nos faz parte do todo e nos sentimos no todo, nos sentimos, algumas vezes, como o todo sentindo a si mesmo, mesmo sendo uma micro parte e tendo uma micro compreensão..

Mas isso não é transmissível, pois não é descritível. Transformado em palavras vira religião. O transe é Deus? O Transe é a Verdade? O transe nos permite ver a essência? Bem, para nada disso há resposta. O transe “é o funcionamento cerebral por vezes com específicos neurotransmissores?” Todas as respostas são, em algum grau, verdade, mas verdade dentro da linguagem, não verdade na presença.

Written by Ivan de Almeida

junho 23, 2016 at 2:10 pm

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A Presença e a Alinguagem

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A Presença e a Linguagem

junho de 2016

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Creio que o grande engano aqui é o de dar ao ritual, vejam, ritual da igreja católica e o discurso ritual o status de cerne religioso, e com isso julgar as culturas pele julgamento deste cerne suposto.

É preciso observar que há dois erros fundamentais nisso, um referente aos fundamentos das religiões todas, que incluem a católica. Outra de julgar as culturas do passado com a “sabedoria” do presente, que tem sua forma mística de ver o universo, só que chama esta forma de ateísmo.

O espanto, digamos assim, não é coisa de escolha. Ao vivermos ao mesmo tempo nos espantamos. Diria que o espanto é parte do viver, porém na verdade o espanto não interessa tanto, porque o espanto já não provém do puro vivo, mas da cultura. O espanto não vai muito além da língua, e a língua é limitada pela significação das palavras, coisa convencional e não Real. O vivo, o ser que somos não se espanta, apenas ali está, ali vive, como um urso, como uma barata, como um tubarão.

O homem vive em manadas, e viver em manadas implica em um acordo, O homem dá significado às palavras, cria palavras para coordenar suas ações coletivas. O homem, depois de certa cultura de palavras se perde nela e é aí, aí precisamente, que começa a buscar nas palavras as respostas. Porém as palavras são apenas ferramentas. Construimos uma casa. Depois perguntamos às ferramentas, ignorando a casa, qual a razão da existência delas. martelo, por que tem um cabo? Por que tem um pedaço de ferro? Ora, é fácil dizer que a razão é o prego, aí o “sábio” leva a pergunta para o prego, mas todos esquecem a casa, cuja feitura é a utilidade do martelo e do prego.

Porém, no casos das igrejas, no caso dos ritos, há duas coisas. Uma é a origem, a entrega ao estado de percepção, a entrega ao transe, a entrega ao transe da existência, no qual a existência em si é o objeto da entrega. Não é um campo de palavras, não é descritível, não é ordenável em idéias. Só é contemplação da existência, contemplação o mais limpa possível da cultura humana, das idéias sociais. O Taoismo quando diz coisas assim intenta quebrar no ouvinte sua fé nas palavras, e aqui é cobrado que faça sentido “em palavras”.A segunda coisa é a transmissão dessas coisas ali percebidas, que são envelopadas conforme a cultura do presenciador. Um entenderá como revelação cristã. Outro entenderá como saber budista, outro entenderá como transe apache, e por aí vai, pois os homens não possuem todos a mesma cultura, porque as coisas acontecem ao longo do tempo, e em cada tempo, em cada língua, em cada cultura a coisa será descrita e narrada de uma forma. A narrativa é o envelope, não é o conteúdo. A narrativa existe para permitir mostrar o caminho a quem o estiver procurando, o caminho que aquela pessoa percebeu ou criou, mas não, nunca atingirá a todos, porque nossas regras sociais, nossa língua social, nossos significados sociais neles não cabe, e a maioria das pessoas vive nesse mundo reduzido das palavras.

Tudo isso continuará. Mesmo uma civilização atéia terá dentro de si buscadores dessa percepção de si.

Aqui, a grande maioria, quase todos, não busca isso. Luta por uma luta insana, que é possuir o saber sobre a existência baseado em palavras, ou seja, tenta colocar um mar dentro de uma lata de um litro. Nosso mundo verbal é mínimo, é menos do que pequeno, é um limitador de consciência. Porém nós, homens sociais que somos, precisamos dele. Podemos dizer que o canto do pássaro significa duas ou três coisas de um pássaro para o outro, e que o pássaro nunca saberá nada porque só sabe três (cinco ou dez, sei lá) significados. Isto é óbvio. E nós, na nossa linguagem, temos exatamente esta limitação, só que com milhares de palavras. Nós precisamos de nossa cultura de palavras para coordenarmos nossa ação. Repito, para coordenarmos nossa ação, não para “entendermos a existência”, ou “negarmos ateísticamente o entendimento”. São duas, perdão, babaquices. A linguagem não nos fará entender nada, a não ser sobre o próprio jogo da linguagem e seus significados.

Lá no passado, estudei filosofia achando que ali havia um saber maior. Sim, ganhei jogo de palavras, argumentos, aprendi a ver a falsidade de argumentos, etc. Mas não há de fato nada ali. Talvez por isso eu goste tanto do Aristóteles, pois sua filosofia não é transcendente, é prática. É utilitária no mundo humano da linguagem. Por isso gosto do Wittgenstein, que destrói o altar filosófico onde é colocado o santo da verdade. Não existe verdade. Por isso gosto do Freud, que não é filósofo nem religioso, mas que constrói uma linguagem para lidar com um fenômeno humano-social, de forma tão rica e escrevendo tão bem.

Aí alguém diz: “existe sim uma verdade, pois eu estou de roupa e comprei a roupa e a roupa está ali, então quando digo que uso roupa estou dizendo a verdade”. Confunde a micro-verdade utilitária com a idéia de verdade filosófica. Sim, a verdade utilitária tem sua…. utilidade. O pio do pássaro é sua verdade.O resto é descrição, dentro da parca língua, dentro das convenções, dentro das engrenagens de um relógio, que muitos acham ser o Tempo. Sequer existe o Tempo, a existência não é conceituável, mas os manés acreditam nos conceitos-de-serviço como se fossem conceitos “da verdade, da realidade óbvia”.

Temos a presença, somos a presença, estamos na presença. Isto é tudo, o resto são convenções.

Written by Ivan de Almeida

junho 9, 2016 at 2:21 pm

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A Cabeceira de uma Mesa Redonda

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A CABECEIRA DE UMA MESA REDONDA.

A Inserção da Pesquisa em Arquitetura na Ordem Científica Contemporânea.

XVII Congresso Brasileiro de Arquitetos

2003
Sessão 2: CULTURA E IDEOLOGIA, b.
Palavras-Chaves: Epistemologia, Pesquisa em Arquitetura, Teoria da Arquitetura.
Ivan de Almeida Junqueira, M.Sc. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro

 

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INTRODUÇÃO:

 
Diversos autores, como Morin e Prigogine, nos falam de uma nova ciência ou de uma Nova Aliança, na qual, dissolvidos os limites entre observação e observador, naquela admite-se definitivamente inserida a conformação cognitiva desse último, não apenas sua psicologia específica como também o sistema de conceitos que partilha com a sociedade e que serão aplicados à descrição que fizer de um fenômeno e à formulação teórica a ele correspondente. Essa assunção, chama-a Edgard Morin, circularidade (Morin, 1997), e traz consigo o fim da ilusão do observador onipresente, impessoal, objetivo, a quem a natureza confessava sua natureza sob a inquisição do método experimental.

 
Thomas Kuhn, o epistemólogo, nos oferece a visão de acontecerem nos diversos campos científicos periódicas trocas de paradigma, sendo uma das definições que apresenta para este termo as formulações teóricas que “serviram, por algum tempo, para definir implicitamente os problemas e os métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência.” (Kuhn, 2001, 30). Porém, em um nível mais profundo, é cabível falar da existência de um paradigma comum a todo o corpo científico, entendendo isso como um núcleo de presunções e preceitos que definem, conforme sua aplicabilidade ou não a um dado campo fenomenal, o que é cientifizável, o que não é.

 
A ciência tradicional, ou clássica, supunha que conhecer algo era fragmentá-lo, reduzi-lo ao mais simples, e que o simples era a fonte de toda a causalidade. Supunha, também, que ao lidar com esse simples era possível isolá-lo do restante do universo, isolamento esse que era o fulcro da experimentação e o amalgama da teoria.  Prigogine nos diz sobre essas premissas:

 
“Quais são os pressupostos da ciência clássica de que pensamos que a ciência se afastou atualmente? Pode considerar-se  que se articulam em torno de uma convicção central: a de que o microscópico é simples, regido por leis matemáticas simples. O que significa que a função da ciência é a de ultrapassar as aparências complexas e reduzir a diversidade dos processos naturais a um conjunto de efeitos dessas leis. Essa concepção dos objetivos científicos é acompanhada por uma discriminação entre o que…. se supõe corresponder à realidade “objetiva” e o que é considerado ilusório, ligado à nossa própria subjetividade.” (Prigogine e Stengers, 1997, 7)

 
No âmbito dessa ciência, a pesquisa em arquitetura restava tributária das fontes principais, pesquisa menor e aplicada, um dos últimos dos elos de uma cadeia causal que se originava no microscópico, e cuja máxima aproximação em relação à ciência consistia no empréstimo  das formulações desenvolvidas nos campos verdadeiramente científicos. Tal situação decorreu da grave incompatibilidade entre o que é a arquitetura e a maneira utilizada pela ciência clássica para investigar a realidade, incompatibilidade que vai além dos métodos, originando-se  nos seus pressupostos. A razão disso é não ser a arquitetura decomponível em fragmentos menores e mais simples, sendo um fenômeno que não se pode explicar por nenhuma de suas partes constitutivas. Na grande mesa da ciência clássica não havia um lugar para a arquitetura mesma, para a investigação de sua especificidade, pois essa especificidade somente surgia de uma conjunção de fatores bastante complexa, impossível de simplificar sem que a dita especificidade desaparecesse. A arquitetura, ao ser decomposta em técnica de construção, em organização espacial das utilidades ou em estética, a tríade clássica de Vitrúvio, desaparecia, escorria entre os dedos de quem a estivesse decompondo, e o que restava já não possuía seu traço identificador.
O resultado disso foi o desenvolvimento de pesquisas que consistiam em aplicar outros saberes à arquitetura:  física aplicada, psicologia aplicada, técnicas de organização aplicadas, cada uma das quais poderia contribuir para a prática da arquitetura, mas nunca para seu entendimento. Restava algo que permanecia oculto, tácito, porquanto não fosse técnica de construção, não fosse organização espacial, não fosse pura estética (e mesmo essa última estava incluída no “ilusório, ligado à nossa própria subjetividade”).

 
Porém o que se diz é estar acontecendo uma metamorfose na ciência. O sentido dessa metamorfose, também se diz, é incluir o que é complexo, mas, mais do que isso, é descrer na possibilidade de simplificação. Isso parece mudar radicalmente a noção do que é e do que não é cientifizável, os objetivos da ciência e os seus métodos. Isso parece mudar a situação de exílio na qual antes se encontrava a pesquisa em arquitetura. Então é para nós do maior interesse procurar saber qual o lugar que nos caberá nessa nova ordem que surge, isto é, se agora há para nós arquitetos que pensamos a arquitetura há um lugar na mesa da ciência, e qual é ele.

 
A ANTIGA ORDEM DOS COMENSAIS.

 
Conforme as honras que se queira fazer à mesa, são dispostos os assentos.  Na mesa da ciência clássica, na qual não havia assento para a pesquisa arquitetura propriamente dita, os campos científicos ordenavam-se segundo o quanto cada um estivesse próximo da causa última, a suposta simplicidade microscópica. À cabeceira, presidindo tudo, encontrava-se a Física.

 
A razão disso é que a ciência dita clássica fundou-se sobre a astronomia –início do método experimental no qual as verificações confirmam as hipóteses-, e sobre a Física, e essa última veio fornecer as bases para a primeira, que foi reduzida em certo momento à uma ciência-exemplo, confirmadora das leis do movimento, que, contudo, tinham sua aplicabilidade maior no mundo sublunar.

 
Para os antigos gregos,a palavra physis, normalmente traduzida como natureza, “abrangia tanto a acepção de “fonte originária” quanto a de “processo de desenvolvimento”.(Pessanha, 1978, XXI). Além disso, tal natureza para os gregos incluía a meteorologia, a biologia, entre outras disciplinas que hoje constituem ramos científicos distintos. Porém, e isso é significativo da idéia de natureza incluída na ciência clássica, apenas um dos ramos científicos mereceu ser chamado de Física, por ser admitido que nos fenômenos de seu campo é que se investigava a natureza da Natureza.

 
Qual era, então, essa natureza da Natureza? Se observarmos bem, veremos que nada do que constituísse o mundo aparente fazia parte dela, mas, ao contrário, sua realidade estava em atributos abstratos da matéria, como a massa, a inércia, o tempo, o espaço, ou então no mundo atômico. Tal natureza constituía-se de um pequeno número de leis, que se aplicadas ao menor, ao microscópico, desdobrariam por sua conjugação toda a multiplicidade das aparências.

 
Poder-se-ia falar da existência de uma cadeia causal, isto é de uma causalidade que emergia do simples para o complexo, cuja tradução esquemática seria algo que começaria nos átomos e seus componentes, e desses, das características de seus elétrons nas órbitas externas, se derivariam as possibilidades de combinação química, dessa se derivaria a biologia, a neurociência, dessas a psicologia e as ciências sociais como a antropologia e a sociologia. Tal causalidade apresenta-se como uma causalidade orientada, que poderia ser representada segundo o esquema abaixo:

 

 

Física Atômica —> Química —> Biologia —> Antropologia

 
Cada uma dessas instâncias remetia à instância imediatamente anterior sua causalidade última, verdadeira, e seguia as leis da instância anterior. Naturalmente o pensamento das ciências sociais não acompanhava esse credo, mas mesmo essas se submetiam ao modelo das ciências naturais, ou buscavam aproximar-se dele, tornando-se assim, “mais científicas”. No ápice dessa forma de pensar, diz Prigogine:

 
“pôde ser mantida por alguns a ilusão de que a atração, posta em fórmulas pela lei da gravitação, permitia atribuir à natureza uma animação intrínseca, e depois de generalizada, explicaria a gênese de formas de atividade cada vez mais específicas e eletivas, até às interações que se constituem a sociedade humana” (Prigogine e Stengers, 1997, 39)

 
Evidentemente, não cabe aqui descrever a história da Física, a evolução dos seus problemas, as teorias que, ao acomodá-los, foram a distanciando aos poucos dos postulados estritamente legalistas iniciais. Para nós, para a finalidade deste trabalho, é suficiente esclarecer que entre o final do Século XIX e os meados do Século XX a Física
transformou-se de tal forma que as teorias que constituíram seus novos paradigmas, e que ainda coexistem sem unidade teórica plena, já não cabiam no modelo anterior, que incluía um observador onipresente, um observador passivo, um método experimental que forçava a natureza a revelar-se. Naquela mesa onde a Física sentava-se à cabeceira, o outro extremo era ocupado por um ente virtual, por um espectro não totalmente enunciado, e esse espectro consistia no observador objetivo. Entretanto as duas principais teorias da Física contemporânea, a Relatividade e a Mecânica Quântica têm em comum o reconhecimento de que naquela mesa havia alguém na outra cabeceira, e que os atos desse alguém é que definiam a coisa observada e a situação a partir da qual se fazia a observação. Ouvimos então que:

 
“A idéia de que a descrição científica deve ser coerente com a definição dos meios teoricamente acessíveis a um observador que pertença a este mundo, e não  a um ser totalmente independente das coações físicas… que contempla o mundo físico “do exterior”, constitui uma das idéias fundamentais da relatividade” (Prigogine e Stengers, 1997, 166)

 
“O fato de a relatividade fundar-se em uma coação que não é válida senão para observadores físicos, para seres que não podem estar senão em um único lugar de cada vez…. faz dessa disciplina uma física humana” (Prigogine e Stengers, 1997, 167)

 
Porém, além disso, a Mecânica Quântica ainda mais aprofunda  a definição do observador, pois assume que não apenas o universo somente pode ser observado de um ponto de vista específico, como que mesmo nesse ponto de vista ele não pode ser plenamente observado,  e que “toda descrição implica na escolha da operação de medida” (Prigogine e Stengers, 1997, 174), e que, “O físico não descobre uma verdade determinada…; ele deve escolher uma linguagem…., um conjunto de conceitos macroscópicos, em cujos termos será solicitado que o sistema responda”. (Prigogine e Stengers, 1997, 175).

 
Para nós, o importante de tais fatos é observar que o modelo das ciências naturais que durante três séculos imperou como a único modelo válido para a investigação plenamente científica restou, a partir dessas quebras de paradigmas dentro de sua ciência-mãe, irremediavelmente alterado. Se a própria Física tornara-se uma ciência humana, também ela deixara de poder ditar as causas primeiras. A idéia da causalidade clássica não mais pode ser utilizada. A idéia da cadeia causal que começava no átomo – ou na gravitação, dependendo da época-, e se estendia até a multiplicidade de atividades humanas, não mais podia subsistir quando o observador, humano, social, culturalmente determinado, era chamado ao palco e introduzido na observação.

 
CIRCULARIDADE, INTERAÇÃO, EMERGÊNCIA.

 
Para a situação resultante dessa dramática metamorfose científica já não podemos usar a metáfora da mesa retangular.  “O observador que observa, o espírito que pensa e concebe, são indissociáveis duma cultura” (Morin, 1997,15), e sendo assim, toda a cultura se introduz na estrutura do conhecimento científico, que já não pode ser mais pensado como conhecimento impessoal, ou de um “demônio que observaria todo o universo do exterior” . (Prigogine e Stengers, 1997, 167).  Vai-se com isso a ilusão da objetividade, vai-se a ilusão da causalidade calculável. Morin nos diz que “toda a realidade antropossocial depende, de certo modo (qual?), da ciência física, mas toda ciência física depende, de certo modo (qual?), da realidade antropossocial.” (Morin, 1997,15), e nos apresenta o seguinte esquema para representar essa dinâmica:

 

 

Física —> Biologia —> Antroposociologia —> Física   (Morin, 1997,15)

 
Este esquema recebe do Morin o nome de circularidade, e entende que todo esforço para elucidá-la deve preservá-la, pois:

 
“romper a circularidade e eliminar as antinomias é, precisamente, tornar a cair sob o império do princípio da disjunção/simplificação ao qual pretendemos escapar. Pelo contrário, conservar a circularidade é recusar a redução dum dado complexo a um princípio mutilador,… é recusar a simplificação abstrata.” (Morin, 1997,21)

 
Porém, como tal circularidade aparece como metodologia? Quis os objetos que se podem investigar a partir dela, e qual seu modelo de causalidade?

 
Para nós, interessados em promover uma investigação da arquitetura, o que ouvimos a respeito é profundamente encorajador. Ouvimos que a ciência, a partir de agora, “é capaz de compreender e descrever, pelo menos parcialmente, os processos complexos que constituem o mais familiar dos mundos, o mundo natural onde evoluem os seres vivos e física biologia antropossociologia suas sociedades.” . (Prigogine e Stengers, 1997, 25). Mas, o que significa isso? De que maneira esse mundo será compreendido?

 
A palavra Complexidade traz em si implicada uma nova causalidade. Essa causalidade não é mais um desdobramento inflexível a partir de reduções à simplicidade, mas, ao contrário, é uma causalidade múltipla, oriunda de tudo ao mesmo tempo, pois nada pode ser isolado de fato. A ontologia dos entes, para essa causalidade, não é mais uma ontologia de desdobramentos sucessivos de uma lei única, de um princípio único, mas uma história de interações. “Não estamos mais no tempo em que os fenômenos imutáveis prendiam a atenção. Não são mais as situações estáveis e as permanências que nos interessam antes de tudo, mas as evoluções, as crises, as instabilidades.” . (Prigogine e Stengers, 1997, 5).

 
Possivelmente terão sido as formulações dos biólogos chilenos Humbero Maturana e Francisco Varela as que melhor deram conta dessa geração complexa. Sua descrição dos processos biológicos como uma história de interações entre um organismo e o meio ambiente, à qual chamam de autopoiese (Maturana e Varela, 1997), nos apresenta uma organização determinando-se através das interações com o meio ambiente circundante, e determinando-se através das deformações que sofre no domínio de suas possibilidades. O que é descrito é um processo, não um estado, uma história, não um momento. As interações “são ações recíprocas que modificam o comportamento ou a natureza dos elementos, corpos, objetos ou fenômenos que estão presentes ou se influenciam” (Morin, 1997,21).
A vida, porém, não se reduz aos componentes químicos que a compõem. Seu peculiar arranjo e sua organização estão além dos componentes, e não se podem explicar por eles. O todo já não é a soma das partes, mas é superior a ele (Morin, 1997,103). O todo é uma emergência daquele arranjo, e suas propriedades decorrem do arranjo. Morin nos diz que:

 
“Podemos chamar emergências às qualidades ou propriedades dum sistema que apresentam um caráter de novidade em relação às qualidades ou propriedades dos componentes considerados isoladamente ou dispostos de maneira diferente em outro sistema.” (Morin, 1997,104).

 
Os sistemas, as organizações, as emergências estudadas, porém, também são recortes. De um lado temos o reconhecimento da impossibilidade do isolamento fenomenal, mas de outro temos a simétrica impossibilidade de promover uma investigação realmente holística. De um lado temos o reducionismo que destrói o objeto examinado quando o reduz aos seus componentes. De outro temos o perigo da irrelevância, isto é, da inclusão na análise de um fenômeno de mais elementos do que aqueles que podemos acompanhar em sua gênese interativa.

 
Como lidar com isso em nosso campo de estudos é o que examinaremos a seguir.

 
A ARQUITETURA COMO EMERGÊNCIA (o que emerge).

 
Para que se promova um recorte fenomenal pertinente, é necessário, em primeiro lugar, identificar a unidade que se examinará. Unidade é o mínimo conjunto que guarda as características da coisa a ser estudada, ou, no dizer de Vigotski, “um produto de análise que, ao contrario dos elementos, conserva todas as propriedades básicas do todo, não podendo ser dividido sem que as perca” (Vigotski, 1998, 5). Essa questão é crucial para as análises fenomenais que considerem a complexidade, e é crucial, como já dito, tanto por evitar a inclusão de elementos turbadores da análise, quanto de impedi-la por excessiva decomposição.

 
Na verdade, o isolamento, princípio implícito do paradigma da ciência clássica, não deixa de ser parte da metodologia necessária à abordagem dos sistemas complexos. O que ocorre é que há uma declaração explícita do isolamento praticado, e não sua assunção implícita. Por outro lado, o significado da observação permanecerá atrelado ao recorte praticado, e isso aparece claramente no uso para matematização dos fenômenos humanos da Lógica Paraconsistente, Nebulosa ou Fuzzi.

 
A arquitetura constitui-se como uma tradição, isto é, sua história e sua natureza se confundem. Essa tradição delimita bastante bem nosso objeto de estudos como uma emergência de um processo de organização. Em seu aspecto mais evidente, a obra arquitetônica não se pode reduzir aos materiais que nela forma usados, mas tampouco pode se reduzir à utilidade atendida, ou às qualidades plásticas. Na delimitação tradicional do objeto arquitetônico e da prática da arquitetura já está desde sempre incluída essa complexidade, esse produzir-se por interações.

 
Seguindo a idéia de Vitruvio, a arquitetura é uma emergência das ações humanas destinadas a organizar o espaço para sua vida cultural –utilidade-, organização essa que produz uma materialidade mais ou menos durável –firmeza-, e que feita resulta em um contexto envoltório do seu usuário, e que se oferece á sua percepção –beleza. Na verdade o construído arquitetônico, sendo emergência desses fatores, o é exatamente porque possibilita a micro-emergência de um outro algo, totalmente distinto das qualidades do ambiente. Diz Morin que: “Na sociedade humana… os indivíduos desenvolvem aptidões para a linguagem, para o artesanato, para a arte, isto é, suas qualidades mais ricas emergem no seio do sistema social” (Morin, 1997,105). Chama isso de micro-emergências.  Para nós tal coisa se identificaria exatamente como o leque dos fenômenos relativos a habitar o ambiente artificial, isto é, o somatório dos efeitos que essa habitação produz no usuário.

 
A investigação de tal micro-emergência, a nós parece o cerne oculto do fenômeno arquitetura, seu aspecto sutil por detrás da materialidade e dos procedimentos de produção do objeto arquitetônico. Qualquer saber que se queira obter sobre a produção de arquitetura deve ser dirigido pela seguinte pergunta implícita: E como isso repercute sobre a experiência do usuário do ambiente construído? É dessa resposta que a pergunta haure seu lugar nesse jogo complexo, que ela se torna pertinente ou não, que ela se torna parte ou não do campo que queremos investigar. Não há arquitetura sem usuário, sem a experiência da habitação.

 
Tradicionalmente, porém, essa investigação era feita orientada por saberes científicos gerados em outros campos. Se, por exemplo, se investigava as relações entre um grupo de indivíduos e um espaço construído, tomava-se como certo que tais relações seriam derivadas de comportamentos biológicos complexificados (Sommer, 1973), isto é, que se poderia transpor para a habitação humana os comportamentos territoriais observados nos animais. Em outros aspectos da relação homem-ambiente se supunha que se poderia aplicar à habitação parâmetros de conforto ambiental gerados no estudo do clima, ainda que feita a ressalva: “É importante assinalar aqui a importância dos aspectos culturais e econômicos na determinação das formas arquitetônicas. Embora neste trabalho se dê ênfase á determinação climática, não podemos deixar de valorizar o significado de outros parâmetros.” (Mascaró, 1981, 72). Ainda assim, os parâmetros considerados trazem implícito um homem genérico, em um espaço também genérico, no qual o restante das condições de habitação pouco influenciam em sua experiência de conforto climático. Esses dois exemplos, simplificações, mostram tão somente como se fazia o aporte de conhecimentos na compreensão da habitação do espaço construído, aporte esse que sempre constituía uma importação de um saber, importação de saber científico dos campos  então considerados verdadeiramente científicos.

 
Porém nos parece que assim permanecíamos ignorando que a experiência da habitação do espaço construído tem o condão de rearranjar todos esses elementos, de colocá-los a seu serviço, de integrá-los de forma que não possam mais ser reduzidos aos comportamentos animais, ou à suportabilidade ou não de temperaturas, de condições atmosféricas ou lumínicas. Esse ignorar exprimia a utilização do modelo da ciência clássica, cujos objetos não incluem algo tão subjetivo como a instância da experiência. É exemplar a descrição da experiência de habitar e  de seus significados feita por Gaston Bachelard em sua Poética do Espaço. Nada ali é senão a própria experiência enunciada, embora tal enunciação necessite de uma modelagem matemática para tornar-se instrumento de prognóstico para além da subjetividade do projetista.

 
Para investigar a arquitetura, é da experiência de habitar que se hierarquizará cada variável. Cada aspecto da construção deve ser avaliado conforme seja experimentado pelos usuários, pelos indivíduos de uma cultura específica, e essa investigação será talvez a verdadeira investigação arquitetônica, no sentido de se remeter àquilo que dela emerge e que constitui seu sentido. Os resultados dessa investigação não serão universais –como de resto nenhum resultado da ciência poderá se dizer-, mas contextuais, não obstante tal contexto possa abranger toda uma cultura, toda uma época, toda a história.

 
CONCLUSÃO

 
Como vimos, os três primeiros séculos de desenvolvimento científico assumiram como paradigma oculto que o entendimento de um fenômeno era sua redução a elementos mais simples, dos quais derivava. Vimos que essa redução pressupunha que tais elementos simples fossem isoláveis, e ainda que aquilo que não se deixasse isolar não era coisa cientifizável. Durante todo esse tempo vimos que em relação à arquitetura a máxima aproximação científica possível era a incorporação em sua feitura de saberes oriundos de outros campos ditos verdadeiramente científicos, como a física (nos processos de construção ou no conforto ambiental), a biodinâmica (no cálculo das escadas), a psicologia comportamental (na busca da compreensão da divisão social do espaço construído).

 
A experiência de habitar, emergência da interação do espaço construído com seu usuário, não era claramente enunciada, por ser de natureza tão subjetiva e complexa que não se deixava partir ou reduzir a elementos simples.

 
Vimos que a ciência clássica já não mais sobrevive, senão como uma inércia ou como um hábito, pois seus pressupostos já não são admitidos sequer no seio do campo científico que a modelou, isto é, da Física, e que a inclusão do observador nela efetuada nos obriga e reformular a idéia de causalidade, de geração. Vimos que disso resulta uma circularidade, na qual a causa já não está isolada, mas provém de pelo menos dois pontos simultaneamente: da natureza e do observador.

 
Vimos que esse novo modelo torna examináveis fenômenos como a arquitetura, pois contempla processos de interação entre causas como os processos geradores das realidades complexas, e postula que nessa geração acontece do todo ser superior –no sentido de dotado de qualidades que não podem ser ditas meras emanações dos elementos que o compõem- às partes, e que isso é chamado de emergência. Vimos que essa nova ciência, ou Nova Aliança oferece a possibilidade de tratar e compreender “processos complexos que constituem o mais familiar dos mundos, o mundo natural onde evoluem os seres vivos e suas sociedades” (Prigogine e Stengers, 1997, 25).

 
Vimos ainda que o objeto arquitetônico em si já é uma emergência, um todo que não se pode decompor em partes no sentido de compreendê-lo a partir dela, e que o processo de geração do objeto arquitetônico é também um processo de interações.

 
Disso tudo, pudemos observar que essa geração de espaço habitável cria, por sua vez, uma micro-emergência, que para nós e da maior importância. Que essa microemergência é a experiência de habitar um espaço construído. Postulamos que o verdadeiro estudo da arquitetura é o estudo dessa experiência, e não dos princípios de organização, das técnicas de construção ou da aplicação de uma psicologia experimental genérica.

 
Essa mudança de orientação, essa mudança de modelo de causalidade, destrói definitivamente a mesa na qual sequer tínhamos assento. A circularidade constrói uma
nova mesa, redonda, na qual as emergências complexas ocupam lugar de destaque. Nessa mesa as causas não se armam hierarquicamente, mas os diversos campos de estudo se aproximam e permutam saberes desenvolvidos sobre suas questões específicas, mas dos quais não são donos, contudo.

 
O reconhecimento de nosso problema específico de estudo nos permite sentar nesta mesa, e, ao centrarmos em nossa questão nossos esforços de investigação, ao tentarmos distinguir o que é lhe é próprio, o que somente emerge no habitar do ambiente artificial arquitetônico, faremos de nosso lugar a cabeceira, pois a cabeceira de uma mesa redonda é onde sentamos quando reconhecemos na capacidade de lidar com nossas questões específicas a fonte maior de validação de nossas formulações.

 

 
BIBLIOGRAFIA
Bachelard, G. A Poética do Espaço, in Os Pensadores XXXVIII. São Paulo. Abril Cultural, 1974.

Kuhn, T. A Estrutura das Revoluções Científicas, 6a Ed. São Paulo, SP. Editora Perspectiva S.A., 2001.

Maturana, H, e Varela, F. DE MÁQUINAS E SERES VIVOS – Autopoiese – a Organização do Vivo, 3a Ed. Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.

Mascaró, L. Luz, Clima e Arquitetura. São Paulo. Edições Técnicas, 1981.

Morin, E. O Método I – A natureza da Natureza, 3a Ed. Lisboa. Publicações EuropaAmérica, 1997.

Pessanha, J. C. Introdução Geral in Os Pensadores I, Pré-Socráticos, São Paulo. Abril Cultural, 1978.

Prigogine, Y e Stengers, I. A Nova Aliança. Brasília. Editora Universidade de Brasília, 1977.

Sommer, R. Espaço Pessoal: as bases comportamentais de projetos e planejamentos. São Paulo. EPU, Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

Vigotski, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo. Martins Fontes, 1998.

Written by Ivan de Almeida

janeiro 12, 2016 at 1:48 pm

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O Engano da Ciência

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O Engano da Ciência

(a ilusão coletiva dos nossos tempos)

Ivan de Almeida
P1080088

Nosso mundo vive iludido pela crença na Ciência. O homem criou a ciência, e a ciência sempre foi uma maneira de entender o mundo prático, mas, desde o Século IXX, veio virando uma religião, substituindo a religião ocidental como foco de crença, e os homens acham que ficaram lúcidos por causa disso, sem ver que só trocaram o nome dos santos.

Não, não sou contra a ciência, ao contrário, a acho interessantíssima. E promete, ou dá esperança, de resolvermos pequenos problemas nossos. Pequenos problemas? Sim, porque as questões existenciais não são questões científicas.

O homem tolo do agora acha que daqui a uns anos terá criado um computador e ele será como o cérebro, mas não vê que o cérebro, e nós no todo somos perceptores da presença, da existência, não somos apenas máquinas de raciocínio. A tolice dessa ideia é confundirem operação da linguagem com a presença. Operação da linguagem, lógica verbal só começa a surgir em nós lá pelos quatro anos, coisa assim, e mesmo assim durante longo prazo da vida infantil nós apenas presenciamos, não falamos para dentro de nós mesmos. A fala, depois de treinada, oculta a Presença.

Repito. A fala, o raciocínio feito de falas e conceitos, essas coisas ocultam a Presença. Na medida em que envelhecemos vamos cada vez mais ocultando de nós a presença e em nós fica ligado o discurso das palavras, discurso social aplicado ao caso particular nosso (nossa língua, nossa cultura, nossa experiência de ambiente). Palavras não traduzem a realidade, a existência. Palavras são apenas mecanismos sociais de coordenação da ação.

Há caminhos que dizem o seguinte… Que o homem tem várias fases. Primeiro ele é quase ligado diretamente à existência quando feto, quando bebê, quando criancinha. Depois deixa de ser ligado por ter construído em si o mundo das palavras, o mundo artificial então tomado como sendo o mundo da existência. Passa a viver nas ideias, tem a percepção ordenada, bitolada pelo mundo social, etc  baseada neste mundo artificial, social. A partir daí ele ganha a possibilidade de reconstruir um caminho para a, digamos, ligação direta da consciência da presença. Essa última etapa é praticamente desconhecida no mundo social. Não só torna-se ignorada como mal falada, chamada de fantasia, etc.

Sim, eu sei. Este texto mistura as coisas, tem um início, hummm… científico e tem um final, hummm… quase místico. Façam o que quiserem com a mistura do bolo. Quem quiser ponha fermento e isso cresce, quem não quiser ponha no forno frio e o bolo ficará solado.

27 de julho de 2014

Written by Ivan de Almeida

julho 28, 2014 at 10:27 pm

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